Gata Borralheira
Há 4 semanas
Um blog sobre enfermagem, sobre humanidade, sobre vidas!
Na escola de enfermagem aprendi que um enfermeiro deve ser antes de mais um profissional capaz de não se deixar dominar por emoções. Perante as situações mais difíceis devemos transparecer calma de modo a transmitir segurança a quem precisa de nós. Ao entrar no local de trabalho, devemos deixar a vida pessoal à entrada.Como se ao vestirmos o uniforme, vestíssemos uma personagem, como um actor.
Ora a vida veio a demonstrar-me que nada disto é assim tão linear. A enfermeira não é um ser frio e impermeável a emoções. O enfermeiro quando entra no local de trabalho distancia-se dos problemas pessoais menores, mas não deixa de ser mãe, esposa, filha... assim como quando despe o uniforme não consegue deixar na bata a preocupação com determinado doente.
O enfermeiro vive a sua profissão com alegria, com amor, com sentimento! Lamento mas não consigo confiar num enfermeiro que não demonstra emoções no seu trabalho, que está sempre ansioso pela chegada do fim do turno, porque só está ali para cumprir o seu horário. Nem acredito no enfermeiro que usa e abusa da profissão como trampolim para altos e ambiciosos voos. Não acredito no teórico de enfermagem que dá aulas de enfermagem sem ter vivido a enfermagem e fala como um papagaio as frases feitas que vêem nos manuais.
Não acredito em enfermeiros que nunca viveram o desespero de perder um doente que acompanharam meses a fio e falam de cuidados paliativos... Não acredito em enfermeiros que ensinam cuidados de reabilitação sem nunca terem participado nos primeiros cuidados de higiene a um doente tetraplégico, no qual ele toma consciência da plenitude da sua incapacidade... Não acredito em enfermeiros que administram aulas de enfermagem pediátrica sem nunca terem assistido ao drama de uma família que toma conhecimento de uma doença oncológica da sua menina de 2 anos de idade... Não acredito no enfermeiro que fala com grande conhecimento teórico de cuidados continuados, mas que nunca viveu o drama de um doente que no dia de alta para domicilio não tem ninguém em casa para o ajudar...
Acredito em todos os enfermeiros que vivem a realidade do seu serviço como de um casamento se tratasse, nos bons e nos maus momentos, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Os enfermeiros são seres humanos que dão parte da sua vida pela profissão que escolheram, por isso dói tanto quando mudam de local de trabalho, porque essas mudanças exigem uma reorganização de emoções que nem sempre é fácil. Porque é isso que distingue os enfermeiros dos técnicos de enfermagem.
Os técnicos de enfermagem passam por cada serviço com um operário que trabalha nunca indústria de produção em série, todos os doentes são iguais aos seus olhos, os seus gestos são frios e executados com precisão. Nunca se envolve, nunca se deixa envolver, nada o desvia das suas funções.
Agora fazendo esta descrição parece-me que, cada vez mais, é isto que pretendem de todos os enfermeiros!
Mas as nossas funções vão muito mais além de dar um comprimido para as dores...
As nossas funções vão muito além de mudar a fralda...monitorizar a temperatura ou a tensão arterial...
A Enfermagem é cuidar, é comunicar, é ouvir, é tocar, é olhar, é sorrir, é aconselhar, é guiar, é acompanhar e claro também medir, trocar, vestir, ensinar, executar, instruir, posicionar...
E tu que acabas de sair da escola que enfermeiro queres ser?
Bem... talvez, para já, podia ser um enfermeiro... empregado, não?
Chamo-me André e tenho 13anos. Já pensei em fazer muitas coisas, quando chegar a idade adulta. Pensei em muitas profissões e até numa peça de teatro fiz de bombeiro e de polícia, nessa altura, fiquei indeciso entre as duas profissões. Mas ainda não me decidi por uma... Há muitas coisas que eu gosto de fazer e como sou bom aluno a várias disciplinas, fico ainda mais confuso. Podem pensar que podia seguir a profissão de alguém que eu admiro... E nisso, eu também já reflecti... Contudo essa reflexão só me trouxe uma certeza, a certeza do que não quero ser, quando for grande. Sabem... os meus pais são enfermeiros. Falam-me do seu trabalho com orgulho, falam-me dos dias mais felizes e dos dias mais tristes... Até já me tentaram convencer a optar pelo seu caminho... Mas eu, hoje, sei que concerteza, não vou ser enfermeiro! Pelos dias, em que falo com o meu pai e vejo o seu olhar fixo em mim, mas com o pensamento esquecido num quarto de hospital; Pelas folgas, cuidadosamente planeadas comigo e interrompidas por uma chamada urgente; Pelos dias de sol perdidos a dormir, após um turno da noite complicado; Pelas festas de Nata da escola, em que nunca tive presentes os dois! Faltava sempre um... Pelas noites em que adormecia com a minha mãe e acordava com o meu pai a sorrir para mim, antes de desmaiar de sono ao meu lado... Pelas despedidas apressadas... Pelas festas de aniversário, feitas à pressa... Entre o turno de um e o do outro... Tenho orgulho nos meus pais e na profissão que têm, mas ontem percebi, nos noticiários, que querem pagar aos enfermeiros, menos do que o salário mínimo nacional, que eu pensava ser para as profissões em que não tinha de se estudar muito... A minha mãe disse que paga mais à D. Maria, a srª a quem a minha mãe paga para cuidar da casa e de mim quando os meus pais estão a trabalhar. O que será que os enfermeiros fizeram de mal, para os colocarem de castigo? Será que estudaram pouco e tiraram más notas? Será que trabalham pouco? Será que não se dedicam, o suficiente? Será que os meus pais também vão ser castigados? Se os meus pais forem castigados também, vou ter de ir viver para casa dos meus avós, porque os meus pais não vão conseguir pagar as despesas... E a D. Maria também vai ficar sem trabalho... Vou ter de mudar de escola? Estou mesmo muito preocupado! Por tudo o que os meus pais deixaram de viver, por serem enfermeiros e porque as pessoas que mandam em Portugal não percebem o valor dos enfermeiros, eu tenho a certeza que... Quando for grande... Não quero ser enfermeiro!”